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Waltinho Travaglini fala sobre os rumos do kartismo no Brasil

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Sem a menor nesga de duvidas, Waltinho Travaglini é uma das (poucas) pessoas que realmente entende de kart. Foi o melhor piloto de todos os tempos – afirmação comprovada por quem competiu contra e ao lado dele -, foi fabricante de karts vencedores, foi instrutor de pilotagem – até de Ayrton Senna -, introduziu e sedimentou as marcas Iame e Parilla no Brasil e ainda é um dos mais respeitados chefes de equipe do país.

No ultimo Campeonato Brasileiro de Kart levou com sua TR3 Motorsports quatro pilotos e trouxe na bagagem dois títulos de campeão. No Brasileiro de Rotax seus pilotos disputaram três categorias. Lógico, foram campeões nas três... Dessa forma não há ninguém com melhores credenciais para traçar os contornos e o rumo do atual kartismo nacional.

“O kartismo brasileiro está hoje bem estruturado”, essa foi a primeira frase dita no seu habitualmente baixo e calmo tom de voz de voz. Todavia, rapidamente seus olhos brilham e com a mesma velocidade dá uma estocada ferina: “… Apenas para os pequenos!”.

Ante o óbvio olhar de interrogação que lançamos, tratou de explicar: “Há muito tempo criamos uma estrutura de categorias que permitisse aos pilotos ter um desenvolvimento técnico compatível ao seu desenvolvimento físico e intelectual, em função da idade e experiência. E isso, aliado a uma sequencia também correta em categorias de base do automobilismo nacional, era o modelo correto para formarmos bons pilotos e com chance de serem competitivos fora do Brasil”.

“Hoje tudo acontece mais rápido, a garotada é constantemente bombardeada com milhões de informações e acabam amadurecendo, em certos aspectos, bem antes da época das gerações anteriores. Até por isso a idade para ir para o carro diminuiu e acho que isso está certo. Porém também acho que nossos dirigentes poderiam começar um trabalho junto às montadoras e grandes empresas, para sensibilizá-las com projetos que criassem novas categorias de base do automobilismo, que permitissem a continuidade dessa sequência, e dar chance para que treinem bastante – e com isso aprendam mais – e formem o que acho essencial, que é o psicológico, a cabeça”, detalhou.

“Isso não é novidade no esporte e já acontece na Europa, onde grandes empresas investem pesado na criação e manutenção de categorias com vocação para propiciar um bom aprendizado. E isso não é só com Fórmula. É também com turismo, GTs e Protótipos. A Renault faz isso, a Fiat faz isso, a Red Bull faz isso, a Praga também faz isso e outras empresas fazem isso. No Brasil a Seletiva Petrobrás entendeu isso e neste ano alterou seu sistema de premiação, que agora é um coadjuvante da formação do piloto”.

“Aprender a andar rápido não é o mais difícil. Isso, com muito treino qualquer um consegue aprender. O difícil é aprender a ser física e mentalmente forte. Não é só acelerar, andar depressa e passar todo mundo. O bom piloto é aquele que está preparado para pensar durante as corridas, traçar novas estratégias diante das situações que encontra e que não se abaterá diante das dificuldades”.

“No kart sempre surge uma moda nova. E a moda da vez é o ‘coach’. E agora todo mundo tem coach, até o faxineiro do kartódromo. Claro, alguns são excelentes e com um histórico e competência suficientes para poderem dar boas orientações. Só que agora qualquer um é coach, é treinador…”

“E isso é um problema sério, de difícil solução. Afinal não há como ser técnico de um desportista dentro do time alheio. A não ser que haja uma íntima relação entre o coach e a equipe do contratante. É o mesmo que imaginarmos alguém do Palmeiras dando coach para um jogador do Corinthians. Não tem lógica e, claro, não pode funcionar”.

“Então, agora, todo mundo é coach e é chique ter um coach! Só que o mais importante eles não sabem, que é formar a autoconfiança do piloto, pois a técnica é simples e o piloto consegue até aprender sozinho. Eu não tive coach, o Emerson não teve coach, o Piquet não teve coach e o Senna não teve coach, mas acho que conseguimos aprender até que bem. Apenas olhando como os outros faziam e fazendo do nosso jeito. O que essa garotada precisa é de um bom nutricionista e um preparador físico que trabalhe também com o aspecto mental, bem ao estilo do que sempre fizeram o José Rubens D’Elia e o Nuno Cobra”.

“Olhando para o lado técnico do kart, estamos de volta com bons produtos e mais próximos do que acontece na Europa. Temos bons chassis e bons motores, mas acredito que o caminho mais correto para o futuro é baseado em categorias mais equilibradas e econômicas, como a Rotax e a Iame TaG. Não é por acaso que estão presentes com campeonatos fortes em tantos países”, vaticinou Travaglini.

 

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Última atualização ( Ter, 04 de Novembro de 2014 14:49 )